Apenas dois dos 11 investiga dos decidiram falar ao GECOC, que apura desvio de R$ 5,4 milhõ es na saúde e pagamento de propina a vereadores de Sidrolândia
Entre os 11 investigados na Operação Dirty Pix, apenas o ex-vereador Cleyton Martins e o empresário Jacob Breure, diretor do Hospital Elmíria Silvério Barbosa, aceitaram responder às perguntas dos promotores do GECOC (Grupo Especial de Combate à Corrupção) durante as oitivas realizadas pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul.
A maior parte dos alvos, por orientação de seus advogados, optou por ficar em silêncio. Com a fase de depoimentos concluída, o MP deve, nos próximos dias, apresentar denúncia à Justiça, com possível enquadramento dos investigados por peculato, corrupção passiva e organização criminosa.
Desvio de verba para equipamentos hospitalares
A investigação apura o desvio de parte dos R$ 5,4 milhões repassados pela Secretaria Estadual de Saúde ao hospital para a compra de uma ressonância magnética e de um autoclave. Segundo o Ministério Público, parte desse valor teria sido usada para pagamento de R$ 265 mil em propina a oito vereadores de Sidrolândia que exerciam mandato em 2022.
Em seu depoimento, o ex-vereador Cleyton Martins, atual secretário municipal de Desenvolvimento Rural, admitiu ter recebido R$ 25 mil de Júlio César Alves da Silva, assessor político e representante comercial da empresa Pharbox, fornecedora dos equipamentos.
Ele afirmou que o dinheiro foi utilizado para custear despesas de campanha do então candidato a governador Eduardo Riedel, principalmente com combustível.
Pagamentos via Pix e comissões
Segundo o GECOC, os repasses a Cleyton foram feitos em duas parcelas. A primeira, de R$ 5 mil, saiu da conta de Júlio César em 28 de setembro de 2022, mesma data em que o ex-vereador Ademir Gabardo também teria recebido R$ 5 mil.
Já em 28 de outubro, dois dias antes do segundo turno da eleição para governador, Cleyton recebeu mais R$ 20 mil via Pix da empresa Farma Medical, ligada à Pharbox.
A investigação mostra ainda que Júlio César recebeu R$ 582 mil em comissão pela venda dos equipamentos, sendo R$ 482,5 mil apenas em outubro de 2022, dois meses antes da conclusão formal da contratação.
Uma parcela de R$ 100 mil foi enviada em 21 de dezembro para a conta da esposa de Júlio, Adriele Nogueira. Dois dias depois, ela transferiu R$ 70 mil ao diretor do hospital, Jacob Breure, por meio de dois TEDs.
Breure afirmou que o valor foi usado para quitar um empréstimo emergencial que teria feito a Júlio, após o motor do carro do assessor fundir. Disse ainda que mantém amizade com Júlio devido à atuação dele na intermediação de emendas parlamentares destinadas ao hospital.
‘Salário extra’ a vereadores
Para o Ministério Público, os pagamentos funcionavam como uma espécie de “salário extra” a parlamentares, considerando que o subsídio mensal de um vereador em Sidrolândia é de R$ 10.128,90.
Alguns investigados teriam recebido o equivalente a dois salários, enquanto um deles chegou a embolsar, em apenas dois dias, o correspondente a 12 vencimentos mensais. Os valores partiram, principalmente, da Farma Medical, empresa ligada à Pharbox.
Quem recebeu quanto, segundo a apuração
Pagamentos feitos pela Farma Medical ou Pharbox
Izaqueu de Souza Diniz (Gabriel Autocar – PSD)
R$ 100 mil para sua empresa (27/10/22)
R$ 20 mil na conta pessoal (28/10/22)
Total: R$ 120 mil
Cledinaldo Cotócio (PSDB)
R$ 25 mil (27/10/22)
R$ 5 mil repassados diretamente por Júlio
Total: R$ 30 mil
Cleyton Martins Teixeira (MDB)
R$ 20 mil (27/10/22)
R$ 5 mil enviados diretamente por Júlio
Total: R$ 25 mil
Pagamentos feitos por Júlia, filha de Júlio César
Após receber R$ 50 mil do pai em 1º de novembro de 2022, além de outros valores posteriormente, Júlia teria repassado:
Ademir Gabardo (Republicanos) – R$ 20 mil
Cristina Fiúza (MDB) – R$ 20 mil
Enelvo Felini Junior (PSDB) – R$ 20 mil
Eliel da Silva (PSDB) – R$ 5 mil (22/12/22)
Adriana Zarati Franco Brandão, esposa do vereador Adavilton Brandão (MDB) – R$ 20 mil
As informações colhidas nas oitivas e na análise das movimentações financeiras devem embasar a denúncia que será oferecida pelo Ministério Público, apontando, segundo o órgão, o uso irregular de recursos públicos destinados à saúde em benefício de agentes políticos e dirigentes ligados ao hospital de Sidrolândia.







